Apêndice 10. Remissão, Perdão.
Existem duas palavras, ἄφεσις – aphesis (g859) e πάρεσις – paresis (g3929), assim traduzidas, a primeira sendo de uso constante, e a última ocorrendo apenas uma vez.
aphesis (que provém de ἀφίημι – aphiémi (g863), “deixar ir”, portanto, “deixar ir de graça”) devia ser a característica do testemunho de João Batista, “dar ao Seu povo conhecimento da salvação, na remissão dos seus pecados” (Lc 1:77). Por isso o encontramos pregando “o batismo de arrependimento, para o perdão [remissão – ARA] de pecados”. Lc 3:3; Mc 1:4. Deixar ir livremente de culpa por Deus é necessariamente em justiça, por isso lemos em Hb 9:22 que “sem derramamento de sangue” não poderia haver “remissão”. Também descobrimos que o cálice na instituição da ceia do Senhor (Mt 26:28) era o símbolo do “sangue do novo testamento [nova aliança – ARA], que é derramado por muitos para remissão dos pecados”. aphesis é identificada com redenção em duas passagens – Ef 1:7 e Cl 1:14. Em Lc 24:47, tendo sido lançada a base na morte de Cristo, o testemunho da remissão é enviado adiante pelo Cristo ressuscitado: “arrependimento e a remissão dos pecados” deveria ser pregado “em Seu nome... em todas as nações, começando por Jerusalém”. Portanto, em At 2:38, para aqueles que foram atingidos em consciência pelo testemunho de Pedro, a remissão dos pecados foi apresentada como a primeira bênção característica que se tornou deles, ao tomar sobre eles o nome de Cristo. Pois “Deus, com a Sua destra, O elevou”, e Pedro ainda testemunha em At 5:31, Ele ser um “Príncipe e Salvador, para dar a Israel o arrependimento e remissão dos pecados”. Em At 10:43, abrindo a porta do reino ainda mais, para a audiência gentia reunida com Cornélio, ele é capaz de apresentar o testemunho de todos os profetas “de que todos os que n”Ele creem receberão o perdão [remissão – ARA] dos pecados”. Em At 26:18 aprendemos que remissão era parte da comissão de Paulo, assim como ele a pregou pela primeira vez na cidade gentia de Antioquia (At 13:38-39). Uma passagem mais, em Hb 10:18, identifica a remissão com o Senhor não mais Se lembrar de pecados, sendo isso agora desfrutado pelo Cristão, e para ser tornado válido para Israel sob o Novo Concerto (Hb 10:16-17). A palavra aparece em todas essas passagens, que são todas as suas ocorrências, exceto Lc 4:19, onde ocorre duas vezes como “liberdade” e Mc 3:29, onde é “perdão”.
aphesis é melhor traduzida por “remissão”: perdoar, como um ato gracioso para com outro, é a palavra χαρίζομαι – charizomai (g5483) como em Ef 4:32; Cl 2:13, 3:13; etc.
Por sua vez paresis (que provém de παρίημι – pariémi (g3935), “deixar passar, relaxar”) ocorre apenas em Rm 3:25, onde é traduzida como “remissão” (ARC, ARF), não se observando a distinção que a passagem faz entre os caminhos de Deus quanto aos pecados daqueles que viveram antes da cruz, e os depois dela, agora que a propiciação foi feita pela fé em Seu sangue. Quanto mais o lugar da “remissão” é visto, como nos textos citados acima, mais a importância da mudança de palavra será sentida aqui onde devemos ler “por ter deixado de lado os delitos passados na tolerância de Deus” (TB). A cruz declarou a justiça de Deus ao passar por cima dos pecados das eras passadas, ao mesmo tempo que lançou a base para que Ele agora seja “Justo e Justificador daquele que crê em Jesus” (Rm 3:26).
Não que sob a lei não houvesse provisão pela qual um pecador de Israel pudesse ter o perdão dos pecados, mas cada novo pecado tinha que ser atendido com novo sacrifício e novo perdão. E mesmo no grande dia da expiação, havia uma “lembrança novamente” dos pecados, feita todos os anos. Além disso, os profetas, como Davi, nos Sl 32, 85:2, 103 etc.; Isaías em muitas passagens; Jeremias em conexão com o concerto novo [nova aliança – ARA] (Jr 31:31) – todos eles, como Pedro pode dizer, deram testemunho do perdão de Deus. Mas não foi a base revelada sobre a qual os antigos se firmaram; a justiça de Deus no julgamento do pecado não poderia ter sido declarada antes da cruz: teriam sido tirados do judaísmo antes do tempo, como Hb 10:2 demonstra. Daí a mudança de palavra pelo apóstolo em Rm 3:25. Deles não era a aphesis da redenção consumada, nem o não ter mais “consciência de pecados” (ARA) – isso é característico da posição Cristã.